quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

PARA ME REDIMIR...

É possível que depois de ler meu texto desforado de ontem, algumas pessoas estejam imaginando que vivo rancorosamente meu casamento ressintindo-me do meu marido vez por outra.Não, não é nada disso(!) e para me redimir aqui vai um conto que escrevi já faz algum tempo, inspirada pura,simples e completamente por meu querido maridinho e que conta de minha vontade que assim permanece:

Meu outro lugar

No corpo do meu marido eu queria estar agora. Que fosse um território eu queria. Um país, um pedaço de terra, um canto da sala. Assim que no corpo do meu marido eu queria estar agora. Como num lugar. Estar como estar no Cazaquistão, no Rio, no pátio, numa rua, no mundo. O corpomundo do meu marido.
Não dentro do corpo, como quem in-corpora, mas no corpo do meu marido abraço. No corpo do meu marido abraços que ele já não me oferece mais quando me vê chorar, corpo terra distante, longe de casa, corpo outro planeta: corpo Plutão. Longe.
Corpo do meu marido quando me busca um pouco desajeitado porque tem pressa em saciar sede e fome de mim. Corpo de terra quente, planeta mercúrio.
Corpo do meu marido relógio na burocracia de horários apertados e conversas só as relevantes. Corpo repartição pública, até prático mas sufocante quando quebra o ar condicionado. Como se o corpo do meu marido uma área; exatas. Razão. Aí já quero um corpo mais mar. Água e sal como das lágrimas, mas sem chorar, porque seria já um corpo mais mulher. Alguma coisa como um corpo que tenha lido Manuel Bandeira e saiba um soluço sem lágrima.
Ele leu Manuel Bandeira e lê. Um corpo do meu marido estante, que me encanta, que prioriza livros. Para livros sempre há espaço e sempre vale gastar com eles dinheiro. O corpo do meu marido um lema: comprar livros não é gastar, é investir.
O corpo do meu marido pernas, braços, peito, rosto. Corpo do meu marido que é corpo do meu marido mesmo. Corpo do meu marido pele dele, que é metade da fronteira do outro de mim. A outra metade minha pele. E quando encostadas, nossas peles, não como um corpo só_ corpoclichê_ mas como uma membrana celular semipermeável. Limite e extravasamento. Corpo do meu marido essas linhas, corpo do meu marido só ele mesmo para me dar uso a um termo da biologia do 2º grau. Corpo do meu marido enfim, onde eu queria estar agora.
Exatamente assim, mas não só, exatamente assim e um pouco mais. Não mais que isso e já muito. Corpo vasto do meu marido, corpo latifúndio, milhas e milhas, continente. Corpo terra do meu marido, corpo do meu marido espaço. Como num lugar. Assim que no corpo do meu marido eu queria estar agora.

4 comentários:

Unknown disse...

A DO REEEI !

Lindo o Blog e melhor ainda a forma como me foi apresentado !

beeijos da caçula :)

Cynthia Lopes disse...

Faço coro com sua caçula: ADOREI.

PS: Posso dar um pitaco? Vc não acha que este fundo preto tira o brilho e a leveza do que vc escreve? Fica a opinião, não me leve a mal, ok? Bjs... Cynthia

Unknown disse...

chamo o rogerio de gordo!!tststststs..

Anônimo disse...

Lindo, lindo. Redimiste-te com louvor - caso sejas espiritualista, ou lavor - se materialista. Mas te redimiste sim. Enfim, só.