segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

GENTE DE TALENTO 2007

Aqui vai o conto que mandei para o concurso GENTE DE TALENTO 2007 e que foi selecionado para publicação:



Título: Rosamundo

RosamundoAcordou no horário costumeiro. Seu organismo funcionava com pontualidade britânica. O jornal do dia já estava a seu lado e ao pé da cama a bandeja de café da manhã, tudo como sempre. Estranhou entretanto que a esposa não estivesse por perto. Chamou-a : Bem?! Nada. Mulher?! Silêncio. Não há de ser nada, pensou, talvez tenha ido à rua comprar o que falta. Começou a leitura. Ao fim da última página a derradeira tentativa de chamar por ela, Rosa?! Resolveu pelo nome para ver se assim respondia... sem resposta partiu para o café. Era alemão, gostava de café húngaro e pão francês com duas fatias de queijo suíço e procciurto di Parma (uma fatia apenas porque não tinha idade para travessuras). Rosa deixava tudo pronto, todo dia, sempre no mesmo horário para o marido alemão de horários britânicos. Já se acostumara ao ritmo pontual das coisas. Agora parecia já ela própria uma alemã um pouco britânica. Antes não, antes, quando se conheceram Rosa era bem brasileira. De família humilde, nascida e criada na Pavuna e freqüentadora do Maracanã com o pai em dias de jogos do Botafogo. Foi lá que se conheceram, ela e o marido. Ele marinheiro aportara no Rio no mesmo dia para partir dois dias depois. Os amigos o levaram para o espetáculo futebolístico carioca. Na arquibancada perto de onde estavam Rosa, a irmã e o pai, não conseguiu tirar os olhos daquela moça que improvisava passos de samba para comemorar um passe bonito, uma defesa ou um gol. Nunca mais embarcou.Rosa, à época brasileira, da Pavuna, foi aprendendo do mundo do marido conforme aprendia a fazer seu café húngaro, comprar seu pão francês, seu queijo e seu procciurto. Para satisfazer seus gostos culinários e culturais foi tendo daqui e de lá aos pouquinhos alguns novos horizontes. A cerveja belga que ele bebia para assistir jogos do Botafogo e de seu time na terra natal, eles tinham TV a cabo para acompanhar o campeonato europeu, a comida alemã , os filmes italianos e os romances russos... os horários ingleses...Nesse dia seu relógio parecia estar com defeito. O marido chamou-a de novo: Bem?! Mulher?! Nem mais Rosa ela era. Só na derradeira tentativa: Rosa?! Nada. Levantou-se por fim, pela primeira vez em todos os anos de casado teria que levar sozinho sua bandeja à cozinha. Ao passar pela sala viu sobre a mesa um bilhete:Adeus. Cansei de ser seu mundo sem fronteiras, não posso seguir sendo seu instrumento para ficar diariamente revisitando um mundo que eu própria não descobri ainda. Parto para tentar conhecê-lo com meus olhos e levar por ele um pouco de mim brasileira. Se cuide.Não há de ser nada, pensou. Ela volta em alguns dias, quem sabe ainda hoje... Mas Rosa nunca mais voltou, Rosa de fato Globalizou-se.
Bem fiquei toda boba!!
Para os que não acreditam, pode conferir www.gentedetalento2007.com.br . Lá, vá em "confira o resutado"... Literatura - contos... e é só achar meu nome(ainda de solteira Marcella Bueno Aôr).

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