domingo, 8 de março de 2009

9 DE MARÇO DE 2009

Escrever é de tudo um pouco. Assim como todas as coisas o são. Dizem alguns que é dom, outros que é um exercício e mais uns tantos que é um hábito caso se queira criá-lo e habituar-se a ele.
Para alguns é doloroso, Rachel de Queiroz declarou certa vez em entrevista que não gostava de fazê-lo, que sempre deixava seus textos que tinham prazo para cima da hora e os redigia a duras penas. Para alguns é e só. Vai saindo sem muito esforço, um pouco sem feder nem cheirar... Não sei se de fato ou se só da boca para fora. Nunca ouvi falar de nenhum dos grandes que desse jeito, a toa, tenham surgido suas linhas, mas quem sabe?!
Para uns escrever é inextricável à suas existências. Rainer Maria Rilke ao aconselhar o jovem poeta confuso de seu fazer poético, recomenda-lhe buscar consigo respostas sobre seu escrever e formula a primeira pergunta a ser feita: “morreria se lhe fosse vedado escrever?”. Adiante, depois do roteiro breve que sugere que o poeta tome adentro de si , alerta: “talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.” E acrescenta entre parêntesis “Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo.” Severo, mas dito com um cuidado quase paternal, à maneira Rilke, de quem humildemente aceita a tarefa proposta pelo rapaz. Fosse um desavisado de seu eleito conselheiro e mais temeroso que grato dos conselhos que pediu, teria talvez desistido da empreitada de dar-se a ler criticamente por Rainer Maria Rilke. Talvez não. Gosto muitíssimo desse livro e já faz anos que o li e que não o releio, mas guardo em algum lugar de mim um outro trecho que às pressas não consegui encontrar para citá-lo, o que pode significar que eu o tenha inventado, não sei... Enfim, era alguma coisa que me lembro lá pelas cartas finais, em que Rainer diz a seu leitor em tom de encerramento e com uma leveza infinita que, se ele ao acordar tinha por primeiro pensamento escrever, então era já um escritor.
Parecendo muito simples, mas a verdade é que raramente, ainda que tão íntimo, é simples quando se trata de escrever.
Em muitos casos é vital. Jorge de Sena em seu poema “Os trabalhos e os dias” relata escrever como quem respira, sentado à uma mesa como se diante do mundo todo estivesse. É grandioso, intenso e inevitável. Ter diante de si o mundo, é ter todas as coisas e nenhuma delas. No caso de Sena todas as pátrias e nenhuma por não ter a sua própria que não o quis por bem querer, mas isso fica para uma outra vez... Talvez.
São muitas coisas, assuntos demais e nenhum. A folha em branco por onde passou a formiga de Mário Quintana e só. Tudo que nela cabe e tudo que escapa a quem diante dela se vê.
João Ubaldo Ribeiro, diz meu Pai, como um atleta de palavras dedica-se à vinte páginas diárias, pelo menos, tenha o que dizer ou não. Exercita-se diante da primeira página em branco e tira de si vinte delas preenchidas como um maratonista apaixonado. Será? Não acho que meu pai tenha inventado um João Ubaldo absurdo, mas não sei até aonde é verdade. Também não acho que seja de todo uma mentira. Uma lorota bem intencionada pode ser... Essa história ele volta e meia repete antes de me aconselhar que escreva mais e mais e sempre, e que, quando me faltar o assunto eu escreva sobre não ter o que escrever.
Viu no que deu? Hoje, eu diante da página em branco e do compromisso dominical de minha postagem, falando disso que é escrever, que admiro e me arrisco e temo e deixo acontecer e batalho e não sei no que dá para os outros, mas que normalmente gosto para mim (pretensiosa), e vou preenchendo umas linhas e enchendo a página.
Nove de março (amanhã) é aniversário do meu pai e depois disso tudo ou disso nada, vou deixar aqui um beijo e agradecer o conselho que ele talvez tenha pensado que eu nem dava ouvidos. Um beijo e obrigada!

3 comentários:

paor disse...

Já tinha lido, reli e senti falta de um novo, estou ficando viciado. Não sei o que houve com o outro comentário.
Beijos,
Pai

paor disse...

C A D Ê O N O V O ?!?!?!?!?!

paor disse...

Quanto tempo ainda falta? Vou precisar esperar muito? Saudades!
Beijos,
Pai