1. UMA FOTO PARA UM CONCURSO
Como parecerá aos olhos de um jurado? Como a uma banca inteira deles. Com que olhos a verão ao examiná-la todos aqueles olhos pelos quais deve passar? Terá valor? Quanto? O primeiro prêmio, algum prêmio, uma boa colocação? Eu ficaria feliz. Tê-la publicada, reconhecida nas páginas de um livro bem cuidado para ser mais e mais vista. Ou menos.
Fecho os olhos meus e a vejo. Só aí está para mim, nalgum lugar de um estado meu comtemplativo de olhos fechados. Só.
Pronta, impressa, não a vi. Não era preciso. Tão logo a busquei, já estando com o envelope preenchido de acordo com o regulamento do concurso, corri ao correio a enviá-la.
Com o cuidado de não lhe passar os olhos, retirei-a de um envelope que me foi entregue na pequena loja bairrista de fotografia e passei-a ao outro. Mais dez passos, o correio, selo, A.R., preço, pagamento, troco e lá se foi .
Lá se foi ela, a foto, ganhar seu rumo a correr pelos olhos de outros a julgá-la, a ver se vale alguma coisa.
Não era preciso. A mim só já tinha todo o valor que lhe era possível dentre os maiores que lhe quisessem ofertar. No “quem dá mais”, ninguém para mais dar que eu. Por mais altos que fossem os lances e por mais cara que ficasse, ainda seria pouco posto o que é para mim. Mesmo sem a ter visto pronta.
De olhos fechados a revejo, tentando fazer dos meus os olhos de quem a receberá com a tarefa de atribuir-lhe nota.
Há que lembrar que é preciso que a foto tenha por assunto a temática sugerida pelos organizadores do concurso, ou pelo menos a tangencie.Com força aperto os olhos fechados perscrutando-a na tentativa de encontrar onde eles possam ver o que sei. Em que canto do cenário que esta foto compõe estaria sua história? Em que profundidade perceberiam sua relação com o tema? Em que ponto sua luz e sua sombra irão revelar o valor que tem a honra de eu lá ter estado a criá-la numa tarde quente mas agradável, de boas conversas.
Não sei se chegarão a vê-lo, o motivo, o dia, as conversas, o céu tão lindo que estava.
Sim, o céu verão e o dia bonito sem fim. Ao que me lembro, o dia como estava fez a foto ainda mais bela. O céu em moldura, azul infinito, e a rua tranqüila. Os carros, todos os que aparecem estão estacionados. Nenhum trânsito. O único movimento, minha coisa favorita na foto, é a ousadia de um senhor que vai a pedalar pelo meio da rua.
Veja que abuso, pelo meio da rua. O cabelo todo branco de uma idade que vai avançada e a pele de uma cor saborosa e uma firmeza antagônica aos fios brancos que leva na cabeça erguida. A postura indefectível, mas pura, natural. Não há rigidez nem força em seus movimentos, é um pedalar relaxado, leve, sem preocupações. Vai ele tão solto, que um assobio lhe sai dos lábios ensaiando uma melodia doce e contínua. Pedala e assobia, pedala e assobia e pedala. Enquanto pedala vai assobiando displicente ao atravessar a rua vazia. Vai só e lá vai, bem pelo meião dela, sem medo. É o dono do mundo. Daquele pedaço de mundo, onde além dele lá estávamos eu e Marcella a bater fotos e bater papo sobre o projeto que pretendíamos engendrar.
Não era coisa de muito tempo nos termos conhecido, mas já parecia estar vindo bons frutos. As idéias foram boas. São. Quem sabe junto forças para levá-las a termo. A foto foi para umas linhas que ela vinha escrevendo numa dessas idéias que bolamos.
Foi uma tarde boa e produtiva a da foto. Falamos, falamos, tivemos mais idéias e conseguimos a foto. Ela adorou. Quando nos voltamos a ver, no trabalho, me disse que não precisaríamos das outras, desde o momento em que a foto se fez à nossa frente e que eu a capturei, ela já sabia que seria aquela. Acrescentou que não tirava o velhinho de bicicleta da cabeça.
Sim, era do trabalho que nos conhecíamos e não fazia muito tempo. Talvez seja pouco para o que se tenha convencionado dizer que seja necessário ao nomearmos alguém de amigo. Talvez nessas medidas nunca tenhamos sido amigas. Que valores e que critérios para definir esses laços? Então uma tarde com uma máquina fotográfica na mão e umas conversas soltas que nos tenha rendido uma boa foto é pouco? Pouco quanto? Tomara que não muito pouco.
Forço a memória da foto e já nem sei se era isso tudo. Espero que de algum pouco valha aos jurados e que a publiquem, porque gostaria muito de vê-la. Senão fico sendo só eu o que restou daquela tarde. A foto, depois de mandá-la imprimir, apaguei da máquina com as outras que ela descartara sem ver. Guardo-a somente na memória. Eu, a lembrança da foto e aquele senhor na bicicleta, que por certo ainda pedala por aí com seu assobio em deboche do perigo que não corria ao atravessar a rua tranqüila. E a rua, é claro, porque a rua ainda está lá, no mesmo lugar.
Até que são muitas coisas, mas eu gostaria que se somasse a foto pronta, impressa, para eu vê-la de olhos abertos. Para eu sabê-la no real do papel e saber que nela os jurados acharam minha história de uma tarde breve com uma amiga, ou pelo menos perceberam que só tendo amigos para numa idade daquela sair a pedalar por aí pelo meio da rua. Sem outras pessoas as pessoas não pedalam por aí assobiando. Sem outras pessoas o que fazemos é levantar com dificuldade de poltronas velhas, resmungando de dor nos quartos.
Como parecerá aos olhos de um jurado? Como a uma banca inteira deles. Com que olhos a verão ao examiná-la todos aqueles olhos pelos quais deve passar? Terá valor? Quanto? O primeiro prêmio, algum prêmio, uma boa colocação? Eu ficaria feliz. Tê-la publicada, reconhecida nas páginas de um livro bem cuidado para ser mais e mais vista. Ou menos.
Fecho os olhos meus e a vejo. Só aí está para mim, nalgum lugar de um estado meu comtemplativo de olhos fechados. Só.
Pronta, impressa, não a vi. Não era preciso. Tão logo a busquei, já estando com o envelope preenchido de acordo com o regulamento do concurso, corri ao correio a enviá-la.
Com o cuidado de não lhe passar os olhos, retirei-a de um envelope que me foi entregue na pequena loja bairrista de fotografia e passei-a ao outro. Mais dez passos, o correio, selo, A.R., preço, pagamento, troco e lá se foi .
Lá se foi ela, a foto, ganhar seu rumo a correr pelos olhos de outros a julgá-la, a ver se vale alguma coisa.
Não era preciso. A mim só já tinha todo o valor que lhe era possível dentre os maiores que lhe quisessem ofertar. No “quem dá mais”, ninguém para mais dar que eu. Por mais altos que fossem os lances e por mais cara que ficasse, ainda seria pouco posto o que é para mim. Mesmo sem a ter visto pronta.
De olhos fechados a revejo, tentando fazer dos meus os olhos de quem a receberá com a tarefa de atribuir-lhe nota.
Há que lembrar que é preciso que a foto tenha por assunto a temática sugerida pelos organizadores do concurso, ou pelo menos a tangencie.Com força aperto os olhos fechados perscrutando-a na tentativa de encontrar onde eles possam ver o que sei. Em que canto do cenário que esta foto compõe estaria sua história? Em que profundidade perceberiam sua relação com o tema? Em que ponto sua luz e sua sombra irão revelar o valor que tem a honra de eu lá ter estado a criá-la numa tarde quente mas agradável, de boas conversas.
Não sei se chegarão a vê-lo, o motivo, o dia, as conversas, o céu tão lindo que estava.
Sim, o céu verão e o dia bonito sem fim. Ao que me lembro, o dia como estava fez a foto ainda mais bela. O céu em moldura, azul infinito, e a rua tranqüila. Os carros, todos os que aparecem estão estacionados. Nenhum trânsito. O único movimento, minha coisa favorita na foto, é a ousadia de um senhor que vai a pedalar pelo meio da rua.
Veja que abuso, pelo meio da rua. O cabelo todo branco de uma idade que vai avançada e a pele de uma cor saborosa e uma firmeza antagônica aos fios brancos que leva na cabeça erguida. A postura indefectível, mas pura, natural. Não há rigidez nem força em seus movimentos, é um pedalar relaxado, leve, sem preocupações. Vai ele tão solto, que um assobio lhe sai dos lábios ensaiando uma melodia doce e contínua. Pedala e assobia, pedala e assobia e pedala. Enquanto pedala vai assobiando displicente ao atravessar a rua vazia. Vai só e lá vai, bem pelo meião dela, sem medo. É o dono do mundo. Daquele pedaço de mundo, onde além dele lá estávamos eu e Marcella a bater fotos e bater papo sobre o projeto que pretendíamos engendrar.
Não era coisa de muito tempo nos termos conhecido, mas já parecia estar vindo bons frutos. As idéias foram boas. São. Quem sabe junto forças para levá-las a termo. A foto foi para umas linhas que ela vinha escrevendo numa dessas idéias que bolamos.
Foi uma tarde boa e produtiva a da foto. Falamos, falamos, tivemos mais idéias e conseguimos a foto. Ela adorou. Quando nos voltamos a ver, no trabalho, me disse que não precisaríamos das outras, desde o momento em que a foto se fez à nossa frente e que eu a capturei, ela já sabia que seria aquela. Acrescentou que não tirava o velhinho de bicicleta da cabeça.
Sim, era do trabalho que nos conhecíamos e não fazia muito tempo. Talvez seja pouco para o que se tenha convencionado dizer que seja necessário ao nomearmos alguém de amigo. Talvez nessas medidas nunca tenhamos sido amigas. Que valores e que critérios para definir esses laços? Então uma tarde com uma máquina fotográfica na mão e umas conversas soltas que nos tenha rendido uma boa foto é pouco? Pouco quanto? Tomara que não muito pouco.
Forço a memória da foto e já nem sei se era isso tudo. Espero que de algum pouco valha aos jurados e que a publiquem, porque gostaria muito de vê-la. Senão fico sendo só eu o que restou daquela tarde. A foto, depois de mandá-la imprimir, apaguei da máquina com as outras que ela descartara sem ver. Guardo-a somente na memória. Eu, a lembrança da foto e aquele senhor na bicicleta, que por certo ainda pedala por aí com seu assobio em deboche do perigo que não corria ao atravessar a rua tranqüila. E a rua, é claro, porque a rua ainda está lá, no mesmo lugar.
Até que são muitas coisas, mas eu gostaria que se somasse a foto pronta, impressa, para eu vê-la de olhos abertos. Para eu sabê-la no real do papel e saber que nela os jurados acharam minha história de uma tarde breve com uma amiga, ou pelo menos perceberam que só tendo amigos para numa idade daquela sair a pedalar por aí pelo meio da rua. Sem outras pessoas as pessoas não pedalam por aí assobiando. Sem outras pessoas o que fazemos é levantar com dificuldade de poltronas velhas, resmungando de dor nos quartos.
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