sábado, 31 de janeiro de 2009

CORUGICE

Até quando você quer que seus filhos sejam paparicados?
Todas as boas mães são corujas.Fato. Algumas mais que as outras, mas todas o são. Há as que querem para sempre os filhos a seu lado, as que os querem do mundo, as que os querem fortes, bravos, valentões, as que os preferem covardes, as que os querem sérios, caretas, fechados e as que os querem livres, viajantes. Umas preferem tê-los morando consigo e constroem uma casa nos fundos do quintal quando eles se casam e outras querem tê-los de visita. Há muitas outras ainda. Inumeráveis, infinitas, mas dentre todas por certo não há nenhuma que queira ter, ver ou saber de seus filhos maltratados.
Quantas entretanto reconhecem que muitas coisas constituem o crescimento real de seus filhos, inclusive os puxões de orelha, as broncas, os castigos que outras autoridades relacionadas aplicam à seus bebês?
Estou sendo muito vaga. Vamos a exemplos práticos:
Estava eu na primeira reunião de pais do novo colégio de meus filhos, uma reunião para conhecermos a equipe antes que começassem as aulas, quando eis que se apresenta a diretora...
Depois de passar um tempo maior que o cabível falando de si, do seu nome, de como era conhecida e tentando dar grandiosidade à sua formação como normalista ( não vi nada de muito grandioso nisso, pelo contrário pareceu-me pequeno e provinciano demais), enfim, depois dessa tediosa auto afirmação, ela virou-se para uma menininha na primeira fileira e perguntou “como é o seu nome?”. Tendo a resposta prosseguiu “você está indo para o primeiro ano, fulana?” Sim respondeu a pobre cobaia“É mesmo?” replicou ela e acrescentou “isso é muito bom, não é?” Para entender o que eu quero dizer, peço que o releiam como uma lição de cursos de línguas, dessas que tantas vezes foram ridicularizados pelo exagero da entonação...
Imediatamente me lembrei de um anúncio do BRASAS se não me engano, em que duas pessoas se encontravam na rua e falavam em português com essa entonação idiotizada:
“que cor é a sua bolsa?” “minha bolsa é amarela, e a sua bolsa, que cor é?” “minha bolsa é azul”... ... ... ... ... ... ... ...
Somando-se a isso veio um discurso mais batido que milk shake e o pedido de uma cafona salva de palmas para aquelas crianças que eram “os verdadeiros artistas de suas próprias vidas e das nossas” ou qq coisa parecida e melada.
Na mesma hora quis ir embora, desfazer a matrícula e voltar com os meninos para a escola anterior que eu tanto gostava e eles também. Na verdade ainda quero, mas infelizmente estou num momento que não posso.
Fiquei pensando, quando é que vão deixar essas crianças crescerem, quando vão reconhecer o crescimento deles e respeitar esse processo? Não estou falando em tratá-los como adultos e nem em forçar comportamentos ou pular etapas, mas de respeitar o fato de que eles já se perceberam crescendo porque aprenderam a ter mais algumas autonomias e as sabem e querem conquistar outras tantas sem que cada vez que o fazem nós os tratemos como débeiznhos “ah, que fofo ele está falando como um rapazinho” ou “olha só, o jeitão de homenzinho dele...rsrsrs”
Elogiar é importante sim, mas há um limite. Seu filho já vai ao banheiro sozinho faz um ano e vc ainda faz estardalhaço anunciando isso como a grande novidade, ele liga e desliga a tv, aumenta e diminui o som, fala muitas vezes de igual para igual com o pai e tem umas conversas com os amigos como você não esperava que fosse ouvir tão cedo e, dependendo da conversa, isso é normal.
Da primeira à terceira vez que vc o elogiou ele certamente sentiu-se o máximo. Daí para frente ele provavelmente sentiu-se sendo tratado como bobo, teve vergonha dos amigos presentes durante a babação ou vergonha de você. Chega. Menos. É melhor desacelerar nas demonstrações de entusiasmo o tempo todo. Não deixe de ser eufórica com as conquistas deles, mas não o seja o tempo todo porque um dia ele sai mundo afora e a realidade das relações que ele engendrará não vai ser só de sorrisos. Se for muito tarde, na primeira carranca ele desmonta.
É claro que queremos para eles o melhor dos mundos, queremos só gente bonita, simpática, sorridente e cuidadosa ao lado deles,mas devemos sempre lembrar que assim o queremos se for real. Lembre-se que muitas vezes sorrisos mascaram maldades e sentimentos cruéis. Se não tivermos respeitado o crescimento de nossos filhos e não os ensinarmos que nem tudo são flores, eles facilmente serão seduzidos por entonações exageradas e sorrisos falsos. Desconfie sempre do excesso.
No Princípio pode ser reconfortante a idéia de ter alguém, quando você não estiver, que também o trate com aquele olhar e jeito de “para mim você será sempre um bebê” como brincamos toda vez que eles reclamam de nossos mimos bobalhões, mas e depois?
Até quando isso funciona e quando começa a atrapalhar? Até quando você quer que seus filhos sejam paparicados? Para sempre? Quando eles vão crescer de fato? Quanto?
Enfim, sobre o colégio, lá mesmo os meus ficarão porque assim é o que podemos para eles de melhor por enquanto e porque podemos sempre tirar muito boas coisas e aprender excelentes lições em todos os lugares. Uma dessas liçõe por exemplo, posso ter eu ao descobrir que lá eles terão mais crescimento do que eu esperava diante desse primeiro contato.. Quem sabe?!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

PARABÉNS


Ontem foi meu parabéns! 18 aninhos(oh Deus, estou ficando velha ... )kkkkkkk kkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Bota mais dez nisso aí!
Viram, consegui fazer diferente daquela solidão toda do ano passado.
Nesse 29/01/2009 teve gente, teve bolo, teve música e risada.
Muito muito obrigada aos que lá estiveram, pela presença e pelo carinho e por terem tornado a comemoração tão especial. Gostei muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito!
P.S. Algumas pessoas que eu gostaria muito que lá estivessem não puderam ir porque não consegui nem falar com elas. Faço questão de mencioná-las aqui:
Carol, perdi o telefone em que estava gravado o seu celular e só tenho seu telefone fixo antigo...
Dani fiquei esperando vc me ligar depois de ter mandado meus telefones pq não tenho o seu aí em Terê...
Mari, na boa, vc sumiu do mapa, né?!
E é claro que meio boba e romântica que sou sempre tenho essa idéia utópica de conseguir reunir a galera toda da faculdade, mas é bastante difícil
Quem sabe na próxima...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

29/01/2009

Apesar de parecer e mesmo ser alguém aparentemente razoável, eu sou uma pessoa meio sem medida. Vizinha de ser responsável, precavida (as vezes – muitas – em excesso), preocupada, neurótica com organização e horários e rotina e cositas mais ... Sou além da conta em muitas coisas.
Ops, terminando de escrever isso me pareceu que pode se dar a ler de maneira pretensiosa esse “além da conta em muitas coisas”. Não foi assim que quis dizer. O que tento colocar é que passo da conta em muitas coisas, não tenho muito a conta das coisas, sou meio sem medida, sem noção, sabe?
Quando digo que assim sou de maneira vizinha à todas as outras maneiras do meu jeito, quero dizer vizinha mesmo. Porta com porta... uma de mim que toca a campainha das outras que me habitam (muitas vezes às duas da madrugada, porque sem medidas é) diversas vezes para dar pitaco sobre as outras , conversar ou só pedir um pouco de açúcar quando o dela acabou. Melhor dizer um pouco de café, porque açúcar não costuma faltar. Essa sem medida de mim é demais de tudo menos do café, que muitas vezes de fato precisa para acordar. Falo mais do que devia, falo o que não devia, choro mais do que é preciso (isso estou aprendendo a controlar... um pouco... ), durmo mais do que posso ou menos demais e aí é bem menos mesmo, menos do que preciso. Preciso mais do que deveria (acho que preciso), reclamo de tudo todo o dia, me desculpo quando não devia, culpo quem não merecia (algumas vezes), agradeço mais do que podia (menos a Deus, que a ele nunca é demais)... Ufa! Ah, e, é claro, amo demais! As pessoas que amo, amo sem medida, mas isso é natural. Filhos, marido, meus irmãos, minha família (no cômputo geral)... o normal por aí, que todo mundo exagera de amar mesmo, mas o negócio, nessa exagerada de mim, é amar demais tudo que podia só gostar muito. Uma música, duas, três, dez mil, todas que eu gosto eu amo demais e ouço e aprendo e canto e canto e canto até o Rogério odiá-la pq já não agüenta mais me ouvir amando tanto as tais músicas (ou por ciúme ou porque minha voz e minha afinação são totalmente sem noção também!). Um vinho – riesling – amo, chocolate amo, biscoito de chocolate amo, de maçã com canela amo, de maisena da Piraquê (pqp) amo, sorvete amo, sorvete de creme com bolo de chocolate amo, não sei quantas comidas amo, quantos livros alguns que nem folheei amo, quantos autores amo, quantas linhas amo, parágrafos, entonações amo amo amo, discursos amo.... Ahhhhhh! Isso está ficando uma verdadeira apologia ao Macdonald´s (amo muito tudo isso), mas assim é que sou nesses exageros em mim.
Contudo, nem só de amor e açúcar e ternura eu sou demais... ninguém, né?! Quando não gosto, não gosto nada mesmo e digo que odeio! Há textos que odeio, atores e atrizes e atuações e filmes e roupas e dias e tarefas e algumas horas de alguns dias e latidos altos de cachorros pequenos e barulhos estridentes e agudos e gente demais num lugar só e ser paternalizada e ser deixada pra lá e ser deixada de lado e Gggggggrrrrrrrrr, arrrrrrghhhhh, sei lá, o-dei-o!
Costuma ser assim. Costumo. Costumava talvez. Com o tempo a gente vai se apaziguando das coisas e um pouco até se apagando delas. Acho que vai demorar para eu me apagar de tudo que amo e odeio e preciso e quero e choro e gargalho e parece-me que o processo de apaziguar-me vai um tanto mais lento que o normal, mas vai indo ou vem vindo até que chegue for para chegar.
Não sei não. É da gente escolher se envelhecemos. Eu prefiro crescer, aprender, acalmar de uns trecos e ganhar a medida de uns outros tantos, mas não perder a capacidade dos exageros e assim não chegar nunca ficar velha sem também morrer cedo!

sábado, 24 de janeiro de 2009

ANTES TARDE DO QUE NUNCA



Para não deixar passar em branco, ou em preto e branco, ainda que seja um pouco tarde (mas vcs sabem o que dizem sobre ser tarde, não é?!!), não podia deixar de desejar

UM FELICÍSSIMO 2009!!!!

O RETORNO

Voltar está sendo muito divertido. Não sei se alguma vez cheguei a mencionar aqui como foi a criação desse BLOG e sua divulgação iniciática... Não é uma história longa, mas mesmo assim vou encurtá-la para não me demorar muito antes de chegar onde quero: Um dia, do nada, pensei em comprar um caderno e andar com ele para cima e para baixo escrevendo tudo o que me viesse à cabeça, que me apetecesse escrever. Depois, um outro dia, do nada, amanheci com a idéia louca de perder meu medo relativamente grande de me expor... No caderno, logo na contracapa, tinha um aviso (isso eu acho que já mencionei) do tipo "se encontrar este caderno por favor não leia, mas se não resistir não me diga que leu nem me deixe ficar sabendo... principalmente se vc me conhece." ,ou qualqer coisa assim. Enfim, lá no princípio do caderno eu queria escrever e escrever e guardar para nínguém ver, e lá pelo meio dele bateu essa loucura de mostrar e mostrar! Vai entender. Nasceu o wwwaorblog.blogspot.com e eu tinha que contar por aí a novidade, se não não tinha como saber, não é?! Não, nã é! A verdade verdadeira mesmo foi que antes que eu começasse a criá-lo aqui, escolher modelo, cores, escrever e etc, eu já tinha bolado um jeito de espalhar a fofoca. Jeito esse que,confesso, encantou-me mais até do que a própria idéia do BLOG. Não foi nada muito tchan, mas eu achei o máximo: fiz uns cartões meio improvisados, do tamanho de um cartão de visitas, em que constava apenas o endereço do blog bem centralizado e grande, e enviei pelo correio para algumas poucas pessoas que gostaria que dessem conta das primeiras visitas.
Tudo em famíli, sabe... pai, irmão irmã, tias, e uns pouco, puquíssimos amigos.
Foi engraçado. Do dia que enviei as cartas, fiquei contando os dias para ter as primeiras manifestações e todo santo dia dava um pulinho aqui, cheia de curiosidade.
Aí, depois de tanto tempo fora, quando resolvi voltar precisava espalhar a fofoca de novo. Pensei em escrever um e-mail, alguma coisa como "Caros generosos leitores das minhas tão faltosas e humides linhas... blá blá blá, etc etc etc... " Contudo, como seria bem fácil presumir, cansei só de pensar no texto que tendia obviamente ao pomposo e exaustivo. Optei então pelo mais breve impossível e, mais uma vez muitíssimo divertidamente, criei um falso E-MAIL AUTOMÁTICO, que dizia apenas AVISO DE REATIVAÇÃO DO ENDEREÇO TAL EM __ /__ /__.
Aí veio a melhor parte do e-mail: ESTA É UMA MENSAGEM AUTOMÁTICA QUE NÃO REQUER RESPOSTA e nas linhas seguintes resgatei meus tempos de criança diante de um teclado ou de uma máquina de escrever... saí apertando todas as teclas a imitar uma supersecretária, dessas que digita super rápido e sem olhar para as letrinhas. Muito bom. E então ficou mais ou menos bem parecido com um desses e-mails qdo são reais. Depois disso o melhor... rever por aqui meus dois leitores mais assíduos, acho até que os únicos, meu irmão (sempre engraçadinho - TE AMO-) e meu pai. Valeu hein, pessoal!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

MUDANÇAS E EXPERIÊNCIAS

Os poucos que por estas paradas me acompanhavam por certo notaram as diferenças na retomada do blog meu. Algumas delas gritantes, como o layout do modelo (agora cheio de bolinhas divertidas), outras mais discretas porém muito significativas.

A foto mudou, apesar de permanecer no mesmo molde "eu, meus pequenos e a presença indireta do meu marido como fotógrafo" e por isso mantive a legenda: assim como gosto de ser : com os meus por perto.

Mudou também minha descrição no QUEM SOU EU ... Essa de extrema importância para deixar claro que pretendo fazer maiores esforços para aqui estar, mas não vou prometer nem garantir regularidade alguma apesar de não querer sumir de novo.
A apresentação de slides é nova e traz consigo uma nova proposta: ir passando de tempos em tempos por meus pintores preferidos. Este primeiro é MATISSE... Não pude escolher apenas as obras, pq trata-se de um álbum que já vem pronto e por este motivo algumas das fotos são de exposições da obra do pintor e etc.
Minha postagem anterior esta foi mais uma experiência... Simplesmente uma foto sob o título. Cheguei até a acrescentar um texto que anunciava um motivo, que eu traria posteriormente, que explicasse tal foto por ali. Todavia ...a verdade é que não há motivo algum, que não o fato de que eu queria tentar algo mais imagético, mais ilustrado e para estrear essa vontade pensei que nada mais belo que uma foto dos pequenos. Eles são lindos, né?
Enfim, pode ser que todas essas coisinhas novas sejam tão somente só isso, ou tudo isso, e pode ser também que sejam umas outras coisas.
Nosso caríssimo ministronovobaianopopreggaemulticoisaepalavras (ufa!) GilbertoGil, formulou certa vez que a única coisa constante no universo é a mudança... Então... tenho pensado até em comemorar meu aniversário este ano! Estou querendo muito espantar aquela minha irritação baixo astral com a data no ano passado, lembram-se?! Arrrrghhh! Xô! Esse ano (sem desmerecer meu 29.01.2008, que foi um lindo dia com momentos de felicidade plena mesmo sem as ligações e os votos e os sorrisos e essas coisas), eu quero música, talvez gente, mesmo que um pouco só, e uma torta de sorvete ITÁLIA! Ninguém quer não,né?

MEUS AMORES

ESSE ANO NÃO ROLOU...

Colo aqui o conto enviado para o concurso "gente de talento 2008", cujo tema foi O VALOR DA AMIZADE. Esse ano minhas linhas não foram suficientes para que meu nome figurasse dentre os selecionados, mas vá lá... pode haver quem goste.

1. UMA FOTO PARA UM CONCURSO


Como parecerá aos olhos de um jurado? Como a uma banca inteira deles. Com que olhos a verão ao examiná-la todos aqueles olhos pelos quais deve passar? Terá valor? Quanto? O primeiro prêmio, algum prêmio, uma boa colocação? Eu ficaria feliz. Tê-la publicada, reconhecida nas páginas de um livro bem cuidado para ser mais e mais vista. Ou menos.
Fecho os olhos meus e a vejo. Só aí está para mim, nalgum lugar de um estado meu comtemplativo de olhos fechados. Só.
Pronta, impressa, não a vi. Não era preciso. Tão logo a busquei, já estando com o envelope preenchido de acordo com o regulamento do concurso, corri ao correio a enviá-la.
Com o cuidado de não lhe passar os olhos, retirei-a de um envelope que me foi entregue na pequena loja bairrista de fotografia e passei-a ao outro. Mais dez passos, o correio, selo, A.R., preço, pagamento, troco e lá se foi .
Lá se foi ela, a foto, ganhar seu rumo a correr pelos olhos de outros a julgá-la, a ver se vale alguma coisa.
Não era preciso. A mim só já tinha todo o valor que lhe era possível dentre os maiores que lhe quisessem ofertar. No “quem dá mais”, ninguém para mais dar que eu. Por mais altos que fossem os lances e por mais cara que ficasse, ainda seria pouco posto o que é para mim. Mesmo sem a ter visto pronta.
De olhos fechados a revejo, tentando fazer dos meus os olhos de quem a receberá com a tarefa de atribuir-lhe nota.
Há que lembrar que é preciso que a foto tenha por assunto a temática sugerida pelos organizadores do concurso, ou pelo menos a tangencie.Com força aperto os olhos fechados perscrutando-a na tentativa de encontrar onde eles possam ver o que sei. Em que canto do cenário que esta foto compõe estaria sua história? Em que profundidade perceberiam sua relação com o tema? Em que ponto sua luz e sua sombra irão revelar o valor que tem a honra de eu lá ter estado a criá-la numa tarde quente mas agradável, de boas conversas.
Não sei se chegarão a vê-lo, o motivo, o dia, as conversas, o céu tão lindo que estava.
Sim, o céu verão e o dia bonito sem fim. Ao que me lembro, o dia como estava fez a foto ainda mais bela. O céu em moldura, azul infinito, e a rua tranqüila. Os carros, todos os que aparecem estão estacionados. Nenhum trânsito. O único movimento, minha coisa favorita na foto, é a ousadia de um senhor que vai a pedalar pelo meio da rua.
Veja que abuso, pelo meio da rua. O cabelo todo branco de uma idade que vai avançada e a pele de uma cor saborosa e uma firmeza antagônica aos fios brancos que leva na cabeça erguida. A postura indefectível, mas pura, natural. Não há rigidez nem força em seus movimentos, é um pedalar relaxado, leve, sem preocupações. Vai ele tão solto, que um assobio lhe sai dos lábios ensaiando uma melodia doce e contínua. Pedala e assobia, pedala e assobia e pedala. Enquanto pedala vai assobiando displicente ao atravessar a rua vazia. Vai só e lá vai, bem pelo meião dela, sem medo. É o dono do mundo. Daquele pedaço de mundo, onde além dele lá estávamos eu e Marcella a bater fotos e bater papo sobre o projeto que pretendíamos engendrar.
Não era coisa de muito tempo nos termos conhecido, mas já parecia estar vindo bons frutos. As idéias foram boas. São. Quem sabe junto forças para levá-las a termo. A foto foi para umas linhas que ela vinha escrevendo numa dessas idéias que bolamos.
Foi uma tarde boa e produtiva a da foto. Falamos, falamos, tivemos mais idéias e conseguimos a foto. Ela adorou. Quando nos voltamos a ver, no trabalho, me disse que não precisaríamos das outras, desde o momento em que a foto se fez à nossa frente e que eu a capturei, ela já sabia que seria aquela. Acrescentou que não tirava o velhinho de bicicleta da cabeça.
Sim, era do trabalho que nos conhecíamos e não fazia muito tempo. Talvez seja pouco para o que se tenha convencionado dizer que seja necessário ao nomearmos alguém de amigo. Talvez nessas medidas nunca tenhamos sido amigas. Que valores e que critérios para definir esses laços? Então uma tarde com uma máquina fotográfica na mão e umas conversas soltas que nos tenha rendido uma boa foto é pouco? Pouco quanto? Tomara que não muito pouco.
Forço a memória da foto e já nem sei se era isso tudo. Espero que de algum pouco valha aos jurados e que a publiquem, porque gostaria muito de vê-la. Senão fico sendo só eu o que restou daquela tarde. A foto, depois de mandá-la imprimir, apaguei da máquina com as outras que ela descartara sem ver. Guardo-a somente na memória. Eu, a lembrança da foto e aquele senhor na bicicleta, que por certo ainda pedala por aí com seu assobio em deboche do perigo que não corria ao atravessar a rua tranqüila. E a rua, é claro, porque a rua ainda está lá, no mesmo lugar.
Até que são muitas coisas, mas eu gostaria que se somasse a foto pronta, impressa, para eu vê-la de olhos abertos. Para eu sabê-la no real do papel e saber que nela os jurados acharam minha história de uma tarde breve com uma amiga, ou pelo menos perceberam que só tendo amigos para numa idade daquela sair a pedalar por aí pelo meio da rua. Sem outras pessoas as pessoas não pedalam por aí assobiando. Sem outras pessoas o que fazemos é levantar com dificuldade de poltronas velhas, resmungando de dor nos quartos.