domingo, 17 de fevereiro de 2008

FUNERAL

Enquanto isso, no outro lado da cidade, na verdade em outra cidade deste Estado, havia uma outra avó. Havia. Não há mais. No dia 14 de fevereiro de 2008 deixou de haver de fato, mas já fazia algum tempo que ela não se ia havendo muito bem. Nada bem.



Brincou meu irmão que era bom que eu tivesse uma boa desculpa para não postar-me aqui por tanto tempo, "tipo..."minha vó faleceu e eu fui no enterro dela que foi longe p caralho no meio de uma floresta em um lugar chamado secretario..."... ... De fato assim ocorreu, embora não tenha sido isso o que me afastou por um tempo destas linhas. Tanto melhor (para os que me gostam de ler), isso me troxe de volta para dizer um pouco também dela, minha outra avó.



Foi bastante confuso, porque envolveu muita coisa. Eu já estava um pouco hormonalmente descompensada, fui acordada com um telefonema às seis da manhã com a notícia, fui ao trabalho para uma reunião estúpida e desnecessária e de lá parti para o funeral. Com medo. Nunca antes estivera num funeral. Com muito medo.


Chegamos tarde, eu meu irmão e minha cunhada. Fomos os últimos a chegar... ficou uma sensação ruim de que estavam somente a nossa espera para o sepultamento e nós, netos desnaturados, os últimos a chegar. Tudo bem. Nada... Tudo bem, nada. Tudo indo, até que eu a vi ali, deitada sob uma quantidade mórbida e assustadora de margaridas, com apenas o rosto e as mãos sobre o peito à mostra. Fiquei esperando que ela se mexesse, minha cabeça não conseguiu concatenar direito a idéia da imobilidade definitiva e fiquei bastante aflita. Muito aflita, muito mesmo. Fiquei parada a certa distância do caixão, os olhos fixos no algodão que preenchia o vão que não se fechou na boca da vó. Minha mãe dopada, esquisita, sei lá, mais ou menos como ela já é de costume, um pouco para mais, fez uma brincadeira achando ser um momento bom para o risível:


"Não se conhecem? Deixa que eu apresento _ Vovó, Marcella, Marcella, vovó_" Sem graça. Nenhuma. Muito sem graça.


Se não a conhecia? Aqui vai um pouco dela como conheci, talvez alguém tenha a medida para dizer se o que eu tinha dela era suficiente para responder à pergunta.
Tinha setenta e tantos anos, acho que uns dez a menos que minha outra avó, mencionada na postagem anterior, mas ultimamente parecia ter uns cem a mais. Porém não simplesmente. Assim aparentava porque resistira brava e surpreendentemente a dois carcinomas graves. Gravíssimos, coisa de muito mais do que sete pontos na carteira... O primeiro foi na pleura, de leve, com metástase no pulmão e nas costas, se não me falha a memória, e o segundo bem simples, mais ou menos ali pelo CÉREBRO!!!!!!!!!!! Admiráveis cem anos a mais de uma verdadeira guerreira. Highlander começou a pensar que finalmente teria companhia em seu solitário mundo de sobrevivência a todos e até os jedis pensaram tratar-se de uma nova escolhida... Que a força esteja com você, vó, exatamente como esteve enquanto você resistia entre nós antes do derradeiro golpe sei lá por quem executado. Quem quer que tenha sido, se de fato alguém há que seja responsável por chamarnos daqui na hora que é nossa de ir, enfim, quem quer que tenha sido, muito sábio foi. Não era para esta minha vovó ficar de cama, sem fala, sem caminhadas nem longas nem curtas, sem habilidades manuais, sem nada, a deriva de quem a estivesse tomando conta. Melhor como está agora, descansada e independente de novo porque de ninguém precisamos para ir embora de vez.
Lembramo-nos, eu e meu irmão, durante o trajeto da viagem e o longo trajeto do cortejo (de fato o cemitério era longe pra caralho), de algumas lembranças que guardávamos da vó. Eram muitas. Com ela, muito próximos a ela, vivemos muitos anos.
Tarso lembrou-se das comidas: do queijo minas frito com açúcar, da calda de chocolate, da batata especial... Ele brincou sobre como ela estaria se tivesse posado para a morte como se para uma foto. Fazendo uma careta, ele acha. Ela adorava caretear, em muitas fotos assim o fez e talvez, se tivesse tido a chance de escolher, talvez tivesse morrido assim, divertida. Eu me lembrei de como ela dançava e gostava de dançar. Notamos que poderia ter sido apropriado tocar um forró que ela tanto praticava de arrasta pé em arrasta pé que freqüentava. Era muita coisa. Repetimos algumas vezes, para nos forçar a acreditar, que foi melhor assim e escolhemos ficar com as coisas boas. Havia algumas cruéis, porque todos nós temos e deixaremos não só boas coisas, mas era a hora de deixar pra lá. Mais vale uma vó boa no coração do que rancores pairando de algumas vezes uma vó mais malvada...
A saudade depois de passado o enterro, é que tomou mais forma. Uma besteira... Meu Tio, quando já estávamos indo embora, chamou-me no quarto, me entregou um dinheiro e foi dizendo "foi seu aniversário e sua vó gostaria de te dar um presente, você sabe que ela sempre fazia isso, por favor aceite". Carinho de vó, sabe? Aquela história batida do dinheiro que vovó me deu num envelope no meu aniversário e que é só meu, eu posso fazer o que quiser com ele... foi vovó que em deu... Fiquei chorosa. Vou sentir falta. Não do dinheiro(nunca é demais deixar bem claro), mas do carinho, da intenção, do presente batido que personificava doses de independência, me dava ares de independente,exatamente como ela gostava de ser.
Ainda vai na minha cabeça muita coisa. Muito estou reforçando para que fique bem gravado e num outro tanto ainda estou passando a borracha. Pode ser que ainda dure um tempinho esse processo, não sei, mas acho que só quando passar é que vou conseguir gastar o dimdim que minha vó me deu no dia do seu funeral.

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