sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Antes que o tempo acabe ou que eu me esqueça

Tenho medo de perder a memória. Dos medos que tenho, esse é um dos que me lembro de bastante tempo. Já tive pavor, quase pânico de perder a memória, hoje resta algum medo.
Era um pavor ou pânico velado, não tinha desespero nem nada, mas lembro-me (que bom!) de que nas minhas agendas eu fazia anotações com referências, por exemplo:
Leonor (mãe); Paulo (pai); Tarso (irmão)... coisas assim. Nas carteiras sempre carregava um cartãozinho em que escrevia o máximo de dados a meu respeito para,caso eu perdesse a memória, ter uma ajuda para saber quem sou. Não é exagero. Vão em frente se quiserem me achar um pouco maluca... por mim tudo bem, essa não é a questão central aqui.
O que quero dizer é que antes que o tempo se acabe ou nos esqueçamos é bom deixar registrado o que acharmos importante, ainda que pareça piegas ou bobo demais para dizer, gravar escrever ou expor. Tendo dito,pretendo hoje, hoje mesmo, declarar aqui um importante amor, porque se um dia a memória me faltar de maneira irrecuperável (ai que medo) mesmo não me lembrando, certamente no fundo sentiria que teria faltado dizer alguma coisa...
Vamos lá...
Sabe aqueles filmes ou piadas , que nos parecem ou soam tão magníficos a ponto de sentirmos uma imperativa necessidade de que outro partilhe dessas breves alegrias? Lembramos imediatamente de alguém que saberia exatamente de nossa emoção ou risada e na primeira oportunidade de encontro com essa pessoa, recontamos o filme ou a piada, o poema ou a prosa. Sem deixar escapar nem um detalhe, cena a cena, verso a verso, linha a linha, falamos, falamos, falamos e no fim da narrativa, fica a sensação de que ... Nada! parece que não surtiu todo aquele efeito que esperávamos... nessas horas eu acabo por acrescentar "você precisa ver(ouvir, ler...)!" Então, há na minha vida (graças a Deus) uma pessoa que, por mais minuciosamente que eu descreva, não é possível acreditar ou não acredita-se o suficiente que seja possível. É preciso conhecê-la! Muitos já me ouviram dizer brincando que "quero ser minha avó quando crescer"... Tudo bem, crescer já estou bem crescida, já entrei na categoria gente grande, então melhoro a brincadeira que é bem verdade: quero envelhecer como minha avó.
Alguns e algumas podem reclamar que ela não tenha sido a melhor das mães, ou das sogras. Tá certo, vocês têm todo o direito conquistado como filhos e noras ou genros que são ou foram... eu respeito, mas direito por direito, eu e todos os netos que quiserem se manifestar aqui, temos o direito de amá-la muito muito e dizer incansavelmente de nossa admiração. E eu o faço:
Ela tem nada menos que 88 anos, isso mesmo, eu repito caso você tenha achado que leu errado, - 88 anos(!!) e ossos fortíssimos de uma muito saudável moçoila de 20! Todos os dias caminha na praia, não tem empregada e mantém sozinha sua casa impecável. Arrasta a mesa, o sofá, a estante e varre cada canto do ap em Ipanema com rigor de General. Tem um gênio e tanto... Meu pai brinca que ela é do FBI - Federação das Baixinhas Invocadas (rsrsrs).. Toma as dores veementemente dos indefesos quando a causa lhe parece legítima e justa, arruma confusão no banco caso a tentem passar para trás (as histórias são incríveis, vocês têm que ouvir...) e cozinha como o quê, mas, tão autentica que é, prefere comer na rua para não ter tanto trabalho diariamente. Ingressou corajosamente no sapateado aos 87 anos e está aprendendo um novo idioma: Italiano, depois de ter cursado com louvor o espanhol, já na terceira idade! Conhece meio mundo... mais da metade melhor dizendo... quase todo, na verdade. Desde o dia 27 ou 28/01 ela está nos Emirados Árabes. Volta dia 18 deste mês (saudade). E... Ah! ... É claro, não poderia me esquecer... ela tem um vasto bestiário de expressões com a palavra ! Olha que maravilha, minha "vó Letu", com 88 anos e divertidíssimas expressões palavronescas!!
Exemplos:
Não gostou? Meta a mão no cú e rasgue
Ah! Vá cagar na praia e limpar o cú com as conchas...
Mais hein... Eta vó!
Enfim, antes que o tempo se acabe, que meu tempo acabe ou o dela, deixo aqui por escrito meu amor e minha necessidade imperiosa de partilhar com outros essa pessoa incrível, minha abuelita super pra frente que me ensinou, quando conversávamos sobre se eu devia ou não trocar de nome ao casar, ela disse:
"Nao importa que você seja Marcella Bueno, Aôr , de Britto ou do raio que o parta. O importante é você ser Marcella."
TE AMO MUITO, VÓ.

4 comentários:

paor disse...

Eu adorei e fiquei emocionado, não só pelo que foi escrito, mas também pela forma como foi escrito. Com certeza ela também vai adorar e se emocionar pelos mesmos motivos.
Beijos,
Paor

Cynthia Lopes disse...

Marcella conheço sua avó e sempre digo a Virgínia a mesma coisa: quero envelhecer como a sua mãe!
Que boa lembrança vc teve, merecida homenagem, bjs, Cynthia

Unknown disse...

pow vc naum posta nada a um tempao ein! acho bom ter uma boa desculpa do tipo..."minha vo faleceu e eu fui no enterro dela que foi longe p caralho no meio de uma floresta em um lugar chamado secretario..." ehheheheheh mta saudade da vovo (q se foi), mas do tempo que ela me reconhecia e talz. agora escreve p ela tb pow!!

Unknown disse...

Marcella, nossa Vó é do car... Valeu por ter conseguido traduzir nossos sentimentos ... tomará que tenhamos o direito de chegar aos 88anos com metade da enregia que D. Letu possui.
Bjs,
Bruno Aôr