Sentou-se diante do computador com meia idéia na cabeça e colocou os óculos. Faz tempo que não usa mais óculos e os guardava sem motivo, mas eram os óculos ou acender um cigarro o que ela achava necessário para render-lhe uma história.
Tinha parado de fumar.
Uma coisa nem a outra tinham servido de alguma ajuda ultimamente. Seu editor já não se importava mais. Faltavam poucos meses para o fim do contrato e ele estaria livre das desculpas como cigarro ou óculos.
Ela não chegou a notar quando as ligações semanais passaram a mensais e depois esporádicos recados da recepcionista da editora, “ Sr. Paccini gostaria de saber se está tudo bem e pergunta sobre detalhes do novo livro.”
Escrevia por encomenda. Uma crônica, um artigo, um conto, uma história... freqüentava vernissages, agia com elegância e era bastante requisitada em debates literários. Tudo por uma carta do leitor muito bem escrita e fundamentada que teve repercussão incomum.
A velha máxima do lugar certo na hora certa, no caso dela na página certa.
O editor num golpe de marketing beirando o absurdo convidou a leitora a discorrer numa página inteira sobre o tema da carta. Deu certo. De repente ela era a cinderela do jornalismo, a abóbora da leitura transformou-se na carruagem da escrita. De leitora a colaboradora, colunista, cronista, contista, badalada.
Alguma hora meia noite seria inevitável. Doze badaladas e todo mundo conhece a história: ela publica uma coletânea, tem algumas boas críticas, se sente a princesa e passa a viver enfiada nos tais sapatinhos de cristal.
Quem usa sapatinhos de cristal dia e noite fica mais alto. O Nariz empina. Ela agora recusa convites, contratou um agente e se preocupa excessivamente em aprimorar seu processo criativo. Aprecia catarses e chama de medíocre o mediano. Abomina-o.
Até sua colocação pronominal é diariamente elevada. Almeja a norma padrão. Já não se dá por satisfeita em pertencer ao grupo de falantes da norma culta.
Resumo da ópera: metidou-se!
A tal ponto que não tem mais o que contar. Nada tem a grandiosidade que linhas que tragam sua assinatura mereçam. Assim foi que passou a sentar-se todo dia em frente ao computador, colocar os óculos, ainda que desejando um cigarro, e ficar olhando para ele sem fim até cansar.
Diante da tela branca do editor de texto, em poses mil, óculos na mão, na cabeça, diante dos olhos, solta os dedos sem direção sobre o teclado esperando um acontecimento.
Conta com a desculpa de que se fosse um cigarro no lugar dos óculos alguma coisa viria, mas como parou de fumar, cria para si um beco sem saída.
Não percebeu o desinteresse do editor, perdeu os causos todos que lhe aconteceram à volta, agarrada somente ao uso clássico da língua e aos apertados sapatinhos de cristais.
Deixou passar incríveis oportunidades. O incêndio no apartamento do outro lado da rua, a participação incrível do Brasil na copa do mundo, o vestido de noiva pendurado por semanas na varanda da vizinha, as ligações da mãe, o lixo de outro vizinho toda terça deixado na sua porta, as revistas de sacanagem sob a cama do filho. Quanta coisa boa ela não teria tirado disso tudo e quantas festas mais não lhe renderiam.Nadinha de nada.
Só ela e a sombra de uma coletânea bem quista, diante do computador e os malditos óculos.
Acho que está na hora de uma mudança. Essa armação está meio fora de moda.
3 comentários:
Lembre-se que agora você tem uma responsabilidade muito grande: evitar que seus leitores sofram crises de abstinência, afinal o vício recrudesce muito facilmente. Já estou na expectativa da próxima postagem.
+ beijos,
Pai
Espero que o tal 15/01 seja um 15/01 de um ano bem distante, lá na frente, aí uma história por 'dia' vai trazer muita 'alegria'. A rima fraca, mas a torcida é forte.
Beijos,
Pai
Olha, hoje já é dia 26/01, então estamos, seus leitores, um pouco tensos, saudosos, mas ainda esperançosos.
Beijos,
Pai
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