Era uma varanda distante mas alinhada à janela. Via-se lá dentro do apartamento até a parede do fundo da sala.
Um casal tinha mudado há poucos dias.
Dava a impressão de serem aqueles primeiros dias oficiais da liberdade recém conquistada. Talvez já viessem até de morar juntos só que num canto que pertencia a apenas um deles, onde o outro era intruso e agora era um lugar deles dois.
Não foi por grande mérito de observação que cheguei a tal conclusão, é que volta e meia recebiam convidados entre familiares e amigos e volta e meia tinha gente até mais tarde em conversas animadas. Estava sendo um lugar festejado.
Depois de um tempo, o tempo que dura uma novidade, virou uma vida normal de um casal normal que em bem pouco tempo passa a se comportar como se já fizesse um tempão de tempo que estivessem juntos...
Algumas vezes ele ia sozinho à varanda para olhar o tempo, algumas com ela para jantar no pedaço certamente mais fresco do apartamento.
A freqüentadora mais assídua porém daquele espaço perfeitamente alinhado à minha janela era ela, vaidosa e dedicada, uma vez por mês lá estavam ela e sua cabeleireira. Devia ser uma daquelas escovas com deídos ou aldeídos, sei lá, aos montes e formol e etanol e metanol e éter, petróleo, toda sorte de absurdos para alisar o cabelo, porque as duas fechavam as portas de vidro e se aprisionavam na varanda onde por duas horas o cabelo era transformado.
Por conta disso acho que ele ganhava uma noite de folga, porque não se via movimento da porta de vidro para dentro. Se bem que quando aconteceu o que testemunhei e narro a seguir, tive a impressão de que ela nem desconfiava que ele não estivesse em casa.
Foi assim:
Num belo dia de escova, aliás, vou ser mais precisa, as escovas eram à noite, numa bela noite de escova, entre conversas de salão no conforto do lar, eis que no puxar fervoroso de uma das mechas o secador explodiu, bum.
Foi momentaneamente hilário, a expressão da cabeleireira foi impagável, mas não foi simplesmente esse o acontecimento.
A explosão deu-se por conta de um curto e gerou umas fagulhas cinematográficas. Uma faísca voou longe e passou pelo basculante do banheiro da suíte que estava entreaberto.
Inacreditavelmente a fagulha hollywoodiana acertou em cheio a cortininha meiguíssima do banheiro dos recém casados e fogo!
As duas enquanto recuperavam-se do susto com o estouro, demoraram a se dar conta do fogo. A cabeleireira ria-se exageradamente de tão nervosa que ficou. Não conseguia parar. Quando finalmente viram as chamas correram estabanadas para a porta de vidro e aí sim estavam em apuros completos.
Não sei como e nem elas sabiam como, mas tinham conseguido a proeza de trancarem-se na varanda.
Uma empurrava a outra, as duas jogavam-se contra a porta e nada.
Foi aí que percebi sobre ela não saber do maridinho querido. Desesperada a esposinha gritava AMOR, AMOR, FOGO, FOGO,amor, tem fogo na suíte. Isso durou segundos.
Eu estava irresponsavelmente atônita e cruelmente divertida, mas outros vizinhos ligaram para os bombeiros.
Antes que eles chegassem porém, o marido apareceu (voltou), a tempo de ver o ninho tomado de fumaça, ao mesmo tempo em que as desvairadas conseguiram abrir a porta.
Correram os três para o banheiro da suíte, onde restavam umas poucas chamas que o marido apagou com uma revista que tinha em mãos.
Com tanta trapalhada e correria, ninguém percebeu que foi um foguinho sem graça e os bombeiros chegaram só para assistir a mulher nervosa com metade dos cabelos lisos e metade alvoroçados, a cabeleireira tendo uma síncope nervosa em gargalhadas e o marido tentando explicar onde estava durante a confusão.
Ficara um pouco até que a poeira, a fumaça, baixasse e deram o fora.
Um comentário:
Até que enfim, mais uma vez! Como um de seus mais fiéis leitores, novamente me regozijo.
Beijos,
Pai
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