sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

14/01


Era uma varanda distante mas alinhada à janela. Via-se lá dentro do apartamento até a parede do fundo da sala.
Um casal tinha mudado há poucos dias.
Dava a impressão de serem aqueles primeiros dias oficiais da liberdade recém conquistada. Talvez já viessem até de morar juntos só que num canto que pertencia a apenas um deles, onde o outro era intruso e agora era um lugar deles dois.
Não foi por grande mérito de observação que cheguei a tal conclusão, é que volta e meia recebiam convidados entre familiares e amigos e volta e meia tinha gente até mais tarde em conversas animadas. Estava sendo um lugar festejado.
Depois de um tempo, o tempo que dura uma novidade, virou uma vida normal de um casal normal que em bem pouco tempo passa a se comportar como se já fizesse um tempão de tempo que estivessem juntos...
Algumas vezes ele ia sozinho à varanda para olhar o tempo, algumas com ela para jantar no pedaço certamente mais fresco do apartamento.
A freqüentadora mais assídua porém daquele espaço perfeitamente alinhado à minha janela era ela, vaidosa e dedicada, uma vez por mês lá estavam ela e sua cabeleireira. Devia ser uma daquelas escovas com deídos ou aldeídos, sei lá, aos montes e formol e etanol e metanol e éter, petróleo, toda sorte de absurdos para alisar o cabelo, porque as duas fechavam as portas de vidro e se aprisionavam na varanda onde por duas horas o cabelo era transformado.
Por conta disso acho que ele ganhava uma noite de folga, porque não se via movimento da porta de vidro para dentro. Se bem que quando aconteceu o que testemunhei e narro a seguir, tive a impressão de que ela nem desconfiava que ele não estivesse em casa.
Foi assim:
Num belo dia de escova, aliás, vou ser mais precisa, as escovas eram à noite, numa bela noite de escova, entre conversas de salão no conforto do lar, eis que no puxar fervoroso de uma das mechas o secador explodiu, bum.
Foi momentaneamente hilário, a expressão da cabeleireira foi impagável, mas não foi simplesmente esse o acontecimento.
A explosão deu-se por conta de um curto e gerou umas fagulhas cinematográficas. Uma faísca voou longe e passou pelo basculante do banheiro da suíte que estava entreaberto.
Inacreditavelmente a fagulha hollywoodiana acertou em cheio a cortininha meiguíssima do banheiro dos recém casados e fogo!
As duas enquanto recuperavam-se do susto com o estouro, demoraram a se dar conta do fogo. A cabeleireira ria-se exageradamente de tão nervosa que ficou. Não conseguia parar. Quando finalmente viram as chamas correram estabanadas para a porta de vidro e aí sim estavam em apuros completos.
Não sei como e nem elas sabiam como, mas tinham conseguido a proeza de trancarem-se na varanda.
Uma empurrava a outra, as duas jogavam-se contra a porta e nada.
Foi aí que percebi sobre ela não saber do maridinho querido. Desesperada a esposinha gritava AMOR, AMOR, FOGO, FOGO,amor, tem fogo na suíte. Isso durou segundos.
Eu estava irresponsavelmente atônita e cruelmente divertida, mas outros vizinhos ligaram para os bombeiros.
Antes que eles chegassem porém, o marido apareceu (voltou), a tempo de ver o ninho tomado de fumaça, ao mesmo tempo em que as desvairadas conseguiram abrir a porta.
Correram os três para o banheiro da suíte, onde restavam umas poucas chamas que o marido apagou com uma revista que tinha em mãos.
Com tanta trapalhada e correria, ninguém percebeu que foi um foguinho sem graça e os bombeiros chegaram só para assistir a mulher nervosa com metade dos cabelos lisos e metade alvoroçados, a cabeleireira tendo uma síncope nervosa em gargalhadas e o marido tentando explicar onde estava durante a confusão.
Ficara um pouco até que a poeira, a fumaça, baixasse e deram o fora.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Uma historia por dia até 15/01.



Sentou-se diante do computador com meia idéia na cabeça e colocou os óculos. Faz tempo que não usa mais óculos e os guardava sem motivo, mas eram os óculos ou acender um cigarro o que ela achava necessário para render-lhe uma história.
Tinha parado de fumar.
Uma coisa nem a outra tinham servido de alguma ajuda ultimamente. Seu editor já não se importava mais. Faltavam poucos meses para o fim do contrato e ele estaria livre das desculpas como cigarro ou óculos.
Ela não chegou a notar quando as ligações semanais passaram a mensais e depois esporádicos recados da recepcionista da editora, “ Sr. Paccini gostaria de saber se está tudo bem e pergunta sobre detalhes do novo livro.”
Escrevia por encomenda. Uma crônica, um artigo, um conto, uma história... freqüentava vernissages, agia com elegância e era bastante requisitada em debates literários. Tudo por uma carta do leitor muito bem escrita e fundamentada que teve repercussão incomum.
A velha máxima do lugar certo na hora certa, no caso dela na página certa.
O editor num golpe de marketing beirando o absurdo convidou a leitora a discorrer numa página inteira sobre o tema da carta. Deu certo. De repente ela era a cinderela do jornalismo, a abóbora da leitura transformou-se na carruagem da escrita. De leitora a colaboradora, colunista, cronista, contista, badalada.
Alguma hora meia noite seria inevitável. Doze badaladas e todo mundo conhece a história: ela publica uma coletânea, tem algumas boas críticas, se sente a princesa e passa a viver enfiada nos tais sapatinhos de cristal.
Quem usa sapatinhos de cristal dia e noite fica mais alto. O Nariz empina. Ela agora recusa convites, contratou um agente e se preocupa excessivamente em aprimorar seu processo criativo. Aprecia catarses e chama de medíocre o mediano. Abomina-o.
Até sua colocação pronominal é diariamente elevada. Almeja a norma padrão. Já não se dá por satisfeita em pertencer ao grupo de falantes da norma culta.
Resumo da ópera: metidou-se!
A tal ponto que não tem mais o que contar. Nada tem a grandiosidade que linhas que tragam sua assinatura mereçam. Assim foi que passou a sentar-se todo dia em frente ao computador, colocar os óculos, ainda que desejando um cigarro, e ficar olhando para ele sem fim até cansar.
Diante da tela branca do editor de texto, em poses mil, óculos na mão, na cabeça, diante dos olhos, solta os dedos sem direção sobre o teclado esperando um acontecimento.
Conta com a desculpa de que se fosse um cigarro no lugar dos óculos alguma coisa viria, mas como parou de fumar, cria para si um beco sem saída.
Não percebeu o desinteresse do editor, perdeu os causos todos que lhe aconteceram à volta, agarrada somente ao uso clássico da língua e aos apertados sapatinhos de cristais.
Deixou passar incríveis oportunidades. O incêndio no apartamento do outro lado da rua, a participação incrível do Brasil na copa do mundo, o vestido de noiva pendurado por semanas na varanda da vizinha, as ligações da mãe, o lixo de outro vizinho toda terça deixado na sua porta, as revistas de sacanagem sob a cama do filho. Quanta coisa boa ela não teria tirado disso tudo e quantas festas mais não lhe renderiam.Nadinha de nada.
Só ela e a sombra de uma coletânea bem quista, diante do computador e os malditos óculos.
Acho que está na hora de uma mudança. Essa armação está meio fora de moda.