domingo, 21 de junho de 2009

FÔLEGO

Dos meus dias de bailarina, resta-me uma vontade de rodopiar em uma demorada pirueta tripla. É uma vontade sorridente de girar e girar e de, enquanto giro, ir levantando os braços soltos e devagar até que cheguem ao céu, suaves.
Poucas vezes nos meus dias de bailarina consegui dar piruetas triplas, mas hoje as quero como se fossem naturais de mim. Há dias em que as desejo para depois num movimento bruto tender largada ao chão e há outros em que, abusada, sonho quicar de leve o pé de base no chão e pondo-o de novo em meia ponta, girar uma vez mais num promenade tão demorado que meu tronco se entorte ao voltear.
Tenho sentido essas vontades muito frequentemente de uns tempos para cá. Qualquer dia, sozinha e sem música mesmo, vou tentar. Para rir que seja...
Nesses dias em que me imagino em rodopios infinitos é como se tomasse um fôlego demorado, desses de fechar os olhos e suspirar no final, depois de ter esvaziado os pulmões de todo o ar, de todo o mal, de toda angústia, toda ansiedade, toda euforia que beire o histérico, todo choro entrecortado, todo riso gargalhado demais quando for vazio, tudo.
Aí ffffffffffffffffffffffffffffffffff ... vazia, puxo todo todo o ar que posso, abro os olhos e pronto! Estou, de novo, pronta para a eventual angústia que me trouxer a vida em meio à correria urbana, a ansiedade das tentativas de acompanhar o pique da vida corrida, as euforias momentâneas dos breves ou prolongados sucessos no corre corre, ou a euforia em êxtase diária de depois de toda loucura voltar para os filhos amados,pronta. Pronta para chorar se doer muito ou muito profundamente, e para rir gargalhadamente mesmo quando for vazio, porque tudo isso é isso mesmo que é. É isso mesmo que sou, mesmo quando estou em processo de aprender a chorar menos e de não rir de tudo ou o tempo todo.
Tudo isso, confesso um pouco envergonhada, sonho bailarina com um fundo musical cafoninha de leve (bastante cafona, digamos), mas que inspira esses rodopios em devaneios de retomada de um passado efêmero de sapatilhas e hoje ouvi essa música... Por isso esse papo meio sem pé nem cabeça... ... ... BANDOLIM de Osvaldo Montenegro.